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Maricá - Itaipuaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Sou poetisa, cantora, compositora e amante das artes.

domingo, 8 de novembro de 2015

DO PRECONCEITO E DO MEDO - BEATRIZ OLIVEIRA



Espanta-me o temperamento belicoso de algumas pessoas! Há coisas tão importantes nesse país pelas quais se deve lutar e as pessoas terminam por desperdiçar a sua energia com lutas vãs.
Sabe aquela velha história do sensor de metais na porta das agências bancárias? Pois bem. Volta e meia, presencio pessoas discutindo com os seguranças da agência porque são obrigadas a colocar moedas, chaves, celulares e outros objetos metálicos no porta-objetos. As pessoas levam tão a sério a questão do dano extra patrimonial que não conseguem avaliar o que representa, de fato, um dano e o que é, apenas, um mero aborrecimento, um contratempo.
Todos sabemos, através da mídia, que os coletivos da Viação Amparo têm sido alvo de inúmeros assaltos, infelizmente. Meu marido e eu, no caminho para casa ou para o trabalho, no sentido inverso da estrada, sempre observamos uma blitz que encosta carros, motos e ônibus. Sempre comentamos acerca dos perigos que vêm envolvendo a região de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá.
No último sábado, voltando de Niterói, sem meu esposo, tomei o ônibus para Itaipuaçu, no terminal. Como é de meu feitio, puxei papo com algumas pessoas na fila, averiguando se aquele carro passaria próximo à minha rua.
A viagem estava tranquila até sermos parados pela famosa blitz de Santa Bárbara. Subiram no ônibus três policiais. Um se dirigiu ao fundo do carro, outro permaneceu no meio e o terceiro à frente, bem de frente para mim. Tudo calmo, enquanto o policial do fundo conversava, fazia perguntas e revistava alguns passageiros. Como eu estivesse sentada na segunda fileira, somente ouvia os sussurros.
De repente, uma confusão se fez ouvir. O jovem para o qual eu havia perguntado sobre o destino do coletivo, se negava a ser revistado. Quando olhei para trás, ele estava de pé, com os braços cruzados, esbravejando que não era justo, que não entendia porque somente ele estava sendo revistado: “é porque eu sou negro? Eu sou trabalhador!”
A esta altura, os dois policias que se encontravam no fundo e no meio do carro, já estavam à frente e atrás do jovem. Todos discutindo se haveria ou não a revista pessoal. Então, o policial que estava à minha frente desceu do veículo e deu lugar a um militar mais maduro, mais velho. Ele entrou e se dirigiu até o recalcitrante, explicou novamente que ele deveria permitir que os policiais fizessem o seu trabalho. Explicou ao rapaz que outros três passageiros foram revistados também e que, por estarem atrás dele, o fato não pôde ser observado. Os policiais pediram o documento de identificação ao rapaz, mas ele não tinha. Eu não cheguei tão perto dele, mas os policiais diziam que ele se acalmasse, porque estava bêbado, com hálito etílico, e poderia fazer alguma besteira. Aquele oficial disse que se ele não aceitasse a revista, seria levado até a delegacia, a fim de se explicar para o delegado e diante da teimosia contumaz do homem de vinte e cinco anos, eles o escoltaram até a viatura policial. O policial que comandava a operação ordenou que o rapaz não fosse algemado, nem colocado na caçamba da viatura.
O policial que fazia a revista continuou o seu trabalho e o oficial permaneceu na parte da frente do veículo desabafando: que estiveram ali naquele mesmo local, até as vinte e três horas do dia anterior e tinham chegado ali de volta, às cinco da manhã; que a empresa não fornece segurança aos passageiros, a despeito de se pagar um seguro embutido na passagem; que ele poderia ser pai daquele rapaz, porque somente de polícia militar, já contava vinte e quatro anos; que gosta do seu trabalho, mas a atitude do rapaz causaria problemas naquele dia, eis que uma viatura teria que leva-lo até a delegacia, juntamente com dois policiais que testemunharam o ocorrido, desfalcando, assim, a barricada. Ao final, ele pediu desculpas a todos e agradeceu pela nossa paciência.
É importantíssimo frisar que, em momento algum, os policiais foram violentos, agressivos ou deseducados.
Dois pontos me tocaram nesse ocorrido. Um revela o quanto o povo vem sendo massacrado pelas políticas antirracismo, erroneamente aplicadas sobre cabeças imaturas, cansadas e sem esperança de um futuro melhor. Cabeças que acreditam que todo o seu infortúnio advém da sua raça, da sua cor, da sua religião, da sua situação social. Pessoas que foram ensinadas, subliminarmente, a terem preconceito contra si mesmas.
Outro revela o quanto a mídia é venenosa e tendenciosa, agindo de acordo com os interesses socioeconômicos do momento. Sim! Eu fiquei pasma com a educação dos policias! Porque estou acostumada a ver e ouvir sobre uma polícia corrupta e perversa.
Após o susto inicial comigo mesma, fui obrigada a raciocinar que, onde quer que haja seres humanos, haverá corrupção e perversidade. Nós não gostamos de falar! Mas há médicos perversos, advogados corruptos, professores perversos, pedreiros corruptos, eletricistas perversos, funcionários públicos corruptos... E é verdade! Há policiais perversos e corruptos! E eles são colocados em maior evidência porque o seu trabalho é influente e amplo. Mas também há policiais amáveis, éticos e que possuem senso de moral. Talvez aqueles profissionais com os quais me deparei nem sejam tão amáveis e éticos. Talvez não tenham pegado pesado com o rapaz porque se encontravam sob vários olhares de testemunhas. Mas talvez sejam somente pessoas de bem fazendo o seu trabalho, em prol da segurança pública.

Há pessoas de bem nesse mundo! Há pessoas de bem em todos os setores da vida. E não é o fato de você ser negro e pobre que dá direito às pessoas de inferiorizarem você. Por isso, não se inferiorize! Se você não deve nada, entregue a sua carteira de identidade ao policial e se deixe revistar. Abra a sua bolsa, tire tudo de dentro dela e deixe o segurança do banco olhar. Aguarde a sua vez! Porque quando bandidos armados invadiam os bancos, as pessoas clamavam por mais segurança. Quando bandidos armados entram nos coletivos, as pessoas clamam por mais segurança. E se algo de muito ruim acontecer com você, para qual número você vai ligar pedindo ajuda? 

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