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Niterói, Rio de Janeiro, Brazil
Sou poetisa, cantora, compositora e amante das artes.

quinta-feira, 1 de março de 2012

O AUXÍLIO RECLUSÃO - Beatriz Oliveira


A internet, como mais um dos veículos de comunicação, tem sido utilizada com muita eficácia para fins de realização de trabalhos escolares e pesquisas científicas, divulgação de vários tipos de atividades, de perfis de pessoas desaparecidas, de políticos desonestos, de literatura e, até, de direitos civis que os cidadãos desconheciam e passaram a conhecer.

Entretanto, a internet, não raro, nos induz a erros crassos. Pessoas mal intencionadas ou mesmo desinformadas, normalmente se utilizam da internet para divulgar notícias incompletas, confusas e, muitas vezes, inverídicas.

Tive o impulso de pesquisar e escrever acerca do auxílio reclusão, em especial, pois vejo que um sem número de pessoas está acreditando em notícias completamente inverossímeis publicadas e espalhadas por e-mail.

Rola por aí que os familiares de todos os presidiários, sem exceção, têm direito ao auxílio reclusão e que o valor a ser recebido seria de novecentos e quinze reais, a partir de janeiro de dois mil e doze.

Bem, quem escreveu isso, ouviu o galo cantar, mas nem sabe onde.

Primeiro, só têm direito ao benefício os dependentes do presidiário, assim elencados os cônjuges e companheiros, filhos menores de vinte e um anos ou inválidos, desde que não emancipados, pais e irmãos não emancipados ou menores de vinte e anos ou inválidos. Atente-se, entretanto que, no caso de pais e irmãos, a dependência financeira deverá ser comprovada legalmente. A dependência de uma classe elimina a dependência da classe seguinte. Isso quer dizer que, se há pais e filhos dependentes, somentes os filhos receberão, na ordem de preferência da Lei Civil.

No entanto, esses dependentes somente receberão tal benefício se o presidiário preencher o requisito de qualidade do segurado, ou seja, o indivíduo deverá estar em dia com suas contribuições mensais para a previdenciária social.

Segundo, o valor do benefício é calculado tomando-se por base os valores das contribuições do sujeito, correspondendo à média dos oitenta por cento maiores salários de contribuição desde julho de mil e novecentos e noventa e quatro, desde que mantida a condição de qualidade do segurado, já mencionada acima. Conforme a tabela apresentada pelo Governo Federal, obedecidas todas as regras acima e feito o cálculo correto, o valor máximo a ser recebido pelo dependente do segurado, a partir de janeiro de dois mil e doze, é de novecentos e quinze reais.

Eu só tenho uma pergunta: será que todos aqueles rapazes que trabalham para o tráfico, que roubam, furtam, praticam homicídios e estupros, que passam o dia inteiro soltando pipas e foguetes, vadiando pelos ônibus, agências bancárias e ruas à busca de vítimas se preocupam em contribuir com a Previdência Social? Temo que não! Aliás, eu suponho que cerca de noventa e nove por cento dos nossos presidiários não mantenham a sua qualidade do segurado.

Penso que o auxílio reclusão deva ter sido criado para um cidadão correto, cumpridor de seus deveres, daqueles cheios de ética e moral que, infelizmente, um dia, seja lá por que motivo for, perca a cabeça e cometa uma loucura. Ou para um funcionário público protegido, que cometa o peculato. Ou, quem sabe, para um político improbo que acabe no lugar onde merece.

De qualquer forma, antes de acreditar no que recebe pela internet, pesquise! Inclusive, não acredite em mim! Vá no sítio da Previdência Social e confirme tudo o que eu disse. Exerça com consciência a sua cidadania.

http://www.previdencia.gov.br/conteudoDinamico.php?id=22

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

QUERO LEMBRAR DO AMOR - Beatriz Oliveira



Ouvi de um homem de 46 anos, culto, profissional, mas que nunca coabitou com ninguém, por opção, que para fazer um homem feliz é muito simples, basta a mulher fazer uma comida gostosa, ter mãos ágeis para lavar, passar e arrumar a casa, inteligência para utilizar no âmbito do trabalho, deitar na cama e manter a boca fechada.

Primeiro, achei que ele estava brincando. Quando percebi que não, achei que fosse um meu delírio. Mas não! Ele continuava sustentando a patifaria. fazer o quê? Calei-me diante de tamanha temerosidade e, para meu maior desespero, comecei a pensar... Será que todos os homens pensam assim? Ou a sua grande maioria? E não dizem, não expressam a sua opinião para não serem tratados por otários?
Será que a independência feminina choca e incomoda tanto ainda, a ponto de o homem ter medo de investir numa relação com uma mulher independente?

Diante da minha dificuldade em encontrar parceiros sérios, estou achando que o meu amigo tem muitos e muitos seguidores. Porque eu tenho muitas dessas qualidades, mas a maior delas vai ficar pra depois - o silêncio. Se eu vejo algo que não concordo, eu falo. Se vejo algo que não vai dar certo, eu falo. Se tem algo me incomodando, eu falo, oras! Ninguém vai me fazer de capacho! Porque eu sou uma mulher! Se eu quisesse ser tapete, entraria na máquina de fios de poliuretano.

O que as pessoas precisam definitivamente entender é que antigamente, as relações se baseavam nos interesses das famílias, do dinheiro, da fazenda, do gado, do café, depois dos casarões, da política... A mulher de antigamente saía da casa dos pais para obter liberdade, um pouco de cultura, acesso ao mundo e à sociedade, uma vida mais digna e dinheiro. E independentemente de qualquer coisa, a mulher era sempre um objeto de troca.

Hoje, a mulher decide que troca vai fazer e pelo quê, em conjunto com o homem, isso põe termo à relação de interesses anteriormente pretendida. Uma mulher pós-graduada, bem empregada, com casa própria, filho saudável na escola e empregada diária, uma mulher da atualidade que tenha tudo isso, sem precisar se casar vai precisar de um homem pra quê? A resposta é muito simples e óbvia demais! Para amar e receber amor e somente para isso.

Por isso, parafraseando Sergio Britto e Torquato Neto, "Só quero saber do pode dar certo. Não tenho tempo a perder!"
Aproveitando o ensejo das músicas, eu evoco um verso de Wagner Moura pra explicar minha solitude: "A vida é mesmo solitária pra quem não tá a fim de qualquer conversa otária" Quer saber? Estou mesmo entendiada com alguns papinhos que eu já sei aonde vão terminar.

Diante do conhecimento da causa, a única coisa que poderá me salvar (sem ser o Chapolin Colorado) é me apaixonar por alguém. Alguém que não queira me mostrar o seu bíceps, nem o seu tanquinho, nem o seu nike novo, nem que o seu carro tem sensor de cansaço, nem que ele é poliglota, etc

Quero alguém que queira me mostrar o seu coração e ver o meu, mesmo que isso implique em eu ter que falar pra caramba às vezes (isso é científico - a mulher fala mais que o homem, oras). Alguém que me apresente à sua família, dizendo: esse é o meu amor! Alguém que curta ir ao cinema comigo e minha filha. Alguém que faça academia comigo pra eu perder os quilinhos extras, só por companhia. E que durma bem agarradinho comigo quando nós estivermos cansados.

Infelizmente, as pessoas hoje vivem procurando agregar coisas materiais, cada vez mais e mais a si e aos seus, e reclamam que vivem relações superficiais e interessadas, sem perceber que o que falta nessas relações é uma coisa básica, simples, barata e todo mundo tem pra dar: AMOR.

O amor aprofunda as relações e faz as pessoas felizes. Quem ama respeita a necessidade de silêncio do outro, e também os seus momentos de falar pra caramba. Com amor pode tudo! O amor é assim! Mas a gente esqueceu...
Infelizmente, a gente esqueceu.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

HEI DE... HÁS DE (Beatriz Oliveira)



Sobre a relva fresca caminham pés descalços à busca dos teus traços, tua linha de contorno, teus passos...
Dançam minhas pernas ao derredor, na praça, como desvairadas traças roendo o alvo morim.
Minhas mãos tateiam fugazes, mexendo nas moitas, nas flores e espinhos. Haverá teus sinais?
Meu olhar vagueia cansado, molhado de sal, vermelho do tempo, procura em cada grão de areia e não estás.
Passaste, noutro tempo, reluzindo estrelas pela boca e pisando os girassóis com longos passos.
Passaste ligeiro e nem me percebeste o encantamento.
Sou, sim, uma dama encantada que caminha de pés nus, dança, tateia as flores e vagueia o olhar molhado, enquanto luta por trazer a mente e os pés à terra.
Hei, ainda, de plantar-me, nua de escárnios e feridas, lépida e coberta de mel, sem nada buscar, somente tendo as mãos abertas a amparar o que vier.
Venha perfume e sol e eu exultarei!
Venha tristeza e lua e eu hei de ser perfume e sol... Sou assim eu.
Hás de reluzir de novo pela boca estrelas e pisar de novo os girassóis. És assim tu.
Hei de te esperar!
Hás de me encontrar!!!

domingo, 27 de novembro de 2011

BELEZAS (Beatriz Oliveira)


Por que algumas pessoas são tão lindas sendo apenas normais?
Analisando-se fria e plasticamente, são pessoas comuns, com algum pouco atrativo e, às vezes, nenhum.
Caso em que me assusta.
E mesmo assim, tão comuns, sem adornos carnais excessivos, sem simetria marcada no rosto e nem olhos azuis ou verdes, algumas pessoas são tão lindas!
Tão impulsiva e descaradamente lindas que me levam a pensar na efetiva superficialidade da aparência associada à profundidade do pensamento inoculador; na seriedade das falsas relações humanas atuais.
Quais são as razões únicas que fazem de cada ser humano um ser especial capaz de ser amado verdadeiramente, pela sua beleza ou pelo seu conteúdo?
Por que algumas pessoas com tanto conteúdo são amadas como pessoas tão normais, quando não o são?
Conteúdo não se perde, não se complica, não se destrói, não se deteriora, conteúdo se renova, evolui.
Não é fácil amar conteúdo, quando se está acostumado a amar superfície.
Simetria, azul e harmonia distraem os sentidos e o pensamento se liberta de pensar.
A folha que boia ama a folha que boia.
A pedra que afunda ama a pedra que afunda.
Por isso, eu acho tão belas algumas pessoas que são apenas normais.
Pessoas que têm beleza assimétrica, divergente, inarmonica, para que eu possa gastar do meu tempo em analisá-las, envolvendo-me, conhecendo-a em cada imperfeição, enquanto ouço a verdadeira beleza de seus lábios, mente e coração.
A beleza toma todo o seu olhar e você não vê mais nada além dela.
O pensamento faz que você veja luz, harmonia, inteligência, amor e, com ele, a beleza que não cessa.
Por que algumas pessoas são tão lindas sendo apenas normais?
Porque elas trazem dentro de si o seu EU desperto, forte, seu deus.
E ai de quem não puder lhe dizer não! Será sim, um seu escravo.
Não da carne, mas do seu espírito, enquanto viverem.

DELÍRIOS DO STILNOX (Beatriz Oliveira)


Eu me sento no sofá vermelho e macio, pensando, já, em refestelar-me. Mas ainda não me é possível, pois tenho o prato de sopa nas mãos equilibrado. Vou sorvendo o creme espesso, com sabor de frango e pequenos filetes de salsa e fiapos de carne da ave. É bem saborosa e aquece o corpo. Sim. Eu estou com frio. Tenho os pés frios e as unhas das mãos levemente arroxeadas pela baixa temperatura, mas simplesmente não tenho coragem de largar o prato, levantar-me, seguir até o quaro, abrir três ou quatro gavetas até encontrar o pijama longo e meias, vestir-me, equilibrar a minha temperatura interna, por conta do tecido frio do pijama, voltar para o sofá, sentar, equilibrando o prato com sopa, colocar novamente o guardanapo ao alcance e recomeçar o ato de sorver.
Essa quebra na rotina simples seria uma bobagem, para alguns, entretanto, para mim significaria abdicar de um momento íntimo de relação comigo mesma, em que eu me equilibro e lido com o meu medo-desejo em relação ao alimento. Esse momento de identificação precisa ser clarificado na mente como um processo de autoconhecimento e libertação. Eu reconheço que sou prisioneira do calor da minha sopa. Mais do que do frio do tempo. Se fosse um sanduíche, eu levantaria. Um qualquer outro prato, eu levantaria. Exceto risoto de funghi. Tudo aclarado, pode-se dizer que, após a sopa quente, no meu sofá vermelho macio, o meu corpo foi-se largando, como se ali fosse ficar para sempre. E eu pude imaginar… Sem ética, educação, sociedade…
Ali eu ficaria. Esparramada no sofá, o prato no chão. Deu sono. Deitei e dormi. Deu calor. Despi-me. Deu tesão. Satisfiz-me. Deu sede. Abri a boca e veio a água. Deu fome. Abri a boca e a comida veio. Liguei a TV, deitada mesmo. Assisti O Clone, El Secreto De Tus Ojos, Inception, The Fountain. Chorei. Desejei justiça. Chorei. Desejei conhecimento. Chorei. Li As Intermitências da Morte, O Ensaio sobre a Cegueira, Clarice na Cabeceira. Gargalhei e chorei. Chorei. Chorei demais da conta! Desejei não pensar, dormi. Dormi muito mesmo! Três dias, seis dias, nove dias! Mas sonhei meu EU. Chorei. O que leva certas pessoas a serem ativas e outras extáticas? O que leva alguém mesmo extático a pensar, como se ativo fosse? A mente e o corpo se entorpecem, mas há uma parte de mim… Há uma parte que teima em emergir e, quanto mais empurrada para o fundo, mais ela impulsiona, no fundo, os pés com o intuito de elevar-se além da superfície.
Não há sonífero bastante! Ha ha ha! Não há entorpecente que segure o que eu sou! Na verdade, penso que o veneno me detona. Paralisa meu corpo e meu estado mental crítico, deixando-me a sós comigo mesma. Isso, embora seja extremamente perigoso, é também, por demais excitante. Pequeníssimas ondas, quase imperceptíveis de choque levíssimo, vão percorrendo minha nuca, minha lombar e meu púbis, como se houvesse pequenas borboletas agitando com velocidade inimaginável as suas finíssimas asas nessas partes do meu corpo.
Penso em tocar-me e sentir aumentadas as ondas, mas os meus olhos estão pesados.
O sonífero é bastante!
O sonífero é bastante.
O sonífero…

DO PRAZER MANIPULADO - Beatriz Oliveira




O prazer é uma linha de ouro bordada no tecido da falta de motivo.

- Por quê? Por quê eu deveria me dar ao trabalho de fazer tal coisa?

- Porque é o prazer. É muito bom e não se desperdiçam delícias nesse mundo de

pobreza e falta de ética.

- Borda o prazer e se enrola no tecido da falta de motivo, se enrola, enquanto ele

pode te cobrir até os tornozelos.

Pois haverá tempo em que o tecido da falta de motivo bordado com a linha de ouro

do prazer somente será capaz de te cobrir o sexo.

Ah, o desdém.

Ai, de Adão e Eva modernizados.

Ai, ai...

BISCOITO FINO - Beatriz Oliveira



O meu olfato segue às ordens de um general maldito.

Tal como todos os lassos, raramente me desperta.

No entanto, ao despertar, envolve-me, pegando os braços,

Pernas, rompendo-me o livor e inebriando-me de odores,

Enleando-me, aos seios, com sentimentos crassos.

Uma vez, assim, envolvida, minha pele toma vida e cria.

Pela pele tudo posso!

Qualquer coisa que passar por mim, é com todo o corpo que eu cheiro e sinto.

De uma árvore eu sinto o musgo fresco e ácido, a umidade através dos poros,

O gosto verde, através do cheiro.

Do mar eu sinto o sal, a cura, o frio, através dos poros,

A solidão do mar, através do cheiro molhado.

Do rapaz moreno eu sinto o sabonete, a proposta e a invasão,

Enquanto minha pele é agredida por minúsculos soldados nus.

Os soldadinhos me invadem a carne com pequeníssimas bombas de perfume

E eu fico totalmente inebriada.

O perfume tornou-se, agora, uma capa de filme plástico, daquelas que cobrem tudo

E ele me cobre toda, da cabeça aos pés, deixando por último o nariz
,
Onde vai entrando agora lentamente, como o meu último sopro de vida,

Entorpecendo-me e me transtornando, ando já perdendo o ar!

Esgazeando, com a boca aberta, imploro por salvamento, quiçá um beijo.

Mas o rapaz é só um passageiro e se mantém no seu papel.

Quero controlar o olfato, desligar o pensamento,

Mas o general não permite!

Passa o vento e o perfume vem. Malditos soldadinhos infames!

Fecho os olhos de prazer. Será isso o prazer completo?

Amar alguém enquanto se é perdido por um odor tão espetacularmente envolvente?

Perder-se em delírio saboreando um delicioso biscoito fino

Feito de olhares, toques e odores de pele de menino?

NOTÍCIAS - LARANJEIRA

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