
Insatisfeito com a labareda, ardo para me consumir!
Aquilo em que toco torna-se luz. Carvão aquilo que abandono.
Sou certamente labareda!
Há homens tão sexies que me deixam muda. Do contrário, eu falaria coisas de que tenho vontade. Coisas que penso a seu respeito e que talvez os aterrasse.
- As árvores, meu filho, não têm alma!
esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minha alma!…
- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
Assim como eu, muitos podem pensar que o belíssimo poema acima se refere a preocupação ambiental e sustentabilidade no planeta. Assim pensando eu, amei-o quando o li na exposição literária Palavra e Imagem, no Centro Cultural Rio de Janeiro dos Correios.
Procurando o texto para reler, em casa, descobri que, na realidade, o texto se refere a outra coisa...
O pai de Augusto dos Anjos teria engravidado uma sua empregada e tomou a decisão de obrigá-la a fazer um aborto. Quando Augusto soube da decisão do pai, escreveu o poema acima.
Amei-o ainda mais!!!

E acabei chegando à conclusão de que o meu corpo não tem absorvido bem as lágrimas que tenho me negado a derramar, por uma “força” que teimei construir com o que chamam de maturidade.
Sempre evito reclamar das minhas mazelas e estou ininterruptamente sorrindo, apesar dos problemas que a vida me apresenta, o que faz os outros pensarem que eu sou uma pessoa altamente positiva e feliz.
Não me considero infeliz, que isso fique bem claro! Mas sou uma pessoa comum, com momentos de alegria e dor. Entretanto, que não se dá o direito de estragar o dia das pessoas ao seu redor com mau humor.
Há pouco tempo, pois, encontrei-me numa situação tragicômica: só, em meu apartamento, na madrugada, deitada em minha cama, com uma baita solidão, uma puta vontade de chorar e... Segurando o choro.
Pasmada, percebi o quanto essa coisa de positivismo me deixou doente! Eu tenho, durante muito tempo, me tirado o direito de me sentir triste porque a gente deve se sentir alegre sempre, dizem.
Há tempos, tenho dificuldade de derramar lágrimas. Preciso lançar mão de filmes tristes para alcançar o meu intento, quando muito necessito.
Passei, então, a elucubrar acerca da minha turva visão.
Meu cérebro tem produzido mais líquido do que o normal e a minha medula já não suporta mais a quantidade, não tem para onde enviá-lo e ele tem ido para os meus olhos. A minha visão está cada vez mais comprometida, mais embaçada, e eu sinto, amiúde, como se enxergasse através de um vidro úmido.
Frequentemente, é necessário abrir e fechar os olhos repetidas vezes, como que para espalhar as gotículas, para que seja possível enxergar um pouquinho melhor, mas a melhora não dura mais que algumas frações de segundo.
Lembro-me que, aos onze anos, quando ganhei minha primeira bicicleta tive vontade de gritar de alegria, mas não gritei, só agradeci, com educação. A educação que meus pais me ensinaram. E que na semana passada, quando bati o dedo do pé na mesa do trabalho, tirando um pedacinho dele, tive vontade de xingar e chorar, mas não fiz isso. Coloquei a mão na boca, fiquei vermelha e disse, com calma, que bati o dedo, enquanto ele sangrava.
Essa coisa me acompanha desde há muito tempo! Não sei quanto...
Acho que preciso voltar a ser criança... Mas não sei que criança. Não lembro quando fui uma criança capaz de gritar e chorar minhas dores e penso que elas foram-se acumulando no meu cérebro em forma de emoções líquidas que agora não têm mais para onde escoar.
E agora? Onde encontrar a idade ideal? Onde encontrar as lágrimas que teimam em não brotar? Aquelas que uma vez escravizadas não aprendem a se libertar. Aquelas de quem Saramago diz: "... então, já não chorava, mas os seus olhos nunca mais voltarão a estar secos, que esse é o choro que não tem remédio, aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces."...

Tudo bem a vida ser tão cara!
Tudo bem o governo não cuidar da segurança,
Do idoso, da criança,
E encher, com o meu dinheiro, a cueca imunda!
Tudo bem o salário ser pequeno,
A idéia ser pequena, o dinheiro ser contado
E os problemas escondidos atrás de um falso sorriso.
Tudo bem o mundo querer me transformar
Em uma Gisele ou Ivete qualquer,
Massificando-me com utopias de ser supermulher!
Tudo bem doer o corpo, a cabeça, a alma,
Engolir o café amargo e o amargo choro,
Perder a esperança, a fé, a calma...
Tudo bem ficar meses sem te ver!
Pensando em se eu ocupo um lugar na sua memória,
Se a minha voz envolve os seus neurônios,
Se eu fiz, de fato, parte da sua história.
Tudo bem um beijo seco e um sorriso frio...
Mas uma promessa quebrada é imperdoável!
Fez-se, em mim, de fato, um vazio palpável,
Quando seu corpo se negou a tocar o meu,
Tão sutilmente, aviltantemente, arredio.
Como se eu fosse uma cadela no cio,
De quem a distância traria paz.
Eu não queria muito mais que um toque...
Bastar-me-ia um abraço terno, de concórdia.
Quebrar a promessa, tão covardemente,
Foi, em meu amor, um tiro de misericórdia.