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Maricá - Itaipuaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Sou poetisa, cantora, compositora e amante das artes.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

HEI DE... HÁS DE (Beatriz Oliveira)



Sobre a relva fresca caminham pés descalços à busca dos teus traços, tua linha de contorno, teus passos...
Dançam minhas pernas ao derredor, na praça, como desvairadas traças roendo o alvo morim.
Minhas mãos tateiam fugazes, mexendo nas moitas, nas flores e espinhos. Haverá teus sinais?
Meu olhar vagueia cansado, molhado de sal, vermelho do tempo, procura em cada grão de areia e não estás.
Passaste, noutro tempo, reluzindo estrelas pela boca e pisando os girassóis com longos passos.
Passaste ligeiro e nem me percebeste o encantamento.
Sou, sim, uma dama encantada que caminha de pés nus, dança, tateia as flores e vagueia o olhar molhado, enquanto luta por trazer a mente e os pés à terra.
Hei, ainda, de plantar-me, nua de escárnios e feridas, lépida e coberta de mel, sem nada buscar, somente tendo as mãos abertas a amparar o que vier.
Venha perfume e sol e eu exultarei!
Venha tristeza e lua e eu hei de ser perfume e sol... Sou assim eu.
Hás de reluzir de novo pela boca estrelas e pisar de novo os girassóis. És assim tu.
Hei de te esperar!
Hás de me encontrar!!!

domingo, 27 de novembro de 2011

BELEZAS (Beatriz Oliveira)


Por que algumas pessoas são tão lindas sendo apenas normais?
Analisando-se fria e plasticamente, são pessoas comuns, com algum pouco atrativo e, às vezes, nenhum.
Caso em que me assusta.
E mesmo assim, tão comuns, sem adornos carnais excessivos, sem simetria marcada no rosto e nem olhos azuis ou verdes, algumas pessoas são tão lindas!
Tão impulsiva e descaradamente lindas que me levam a pensar na efetiva superficialidade da aparência associada à profundidade do pensamento inoculador; na seriedade das falsas relações humanas atuais.
Quais são as razões únicas que fazem de cada ser humano um ser especial capaz de ser amado verdadeiramente, pela sua beleza ou pelo seu conteúdo?
Por que algumas pessoas com tanto conteúdo são amadas como pessoas tão normais, quando não o são?
Conteúdo não se perde, não se complica, não se destrói, não se deteriora, conteúdo se renova, evolui.
Não é fácil amar conteúdo, quando se está acostumado a amar superfície.
Simetria, azul e harmonia distraem os sentidos e o pensamento se liberta de pensar.
A folha que boia ama a folha que boia.
A pedra que afunda ama a pedra que afunda.
Por isso, eu acho tão belas algumas pessoas que são apenas normais.
Pessoas que têm beleza assimétrica, divergente, inarmonica, para que eu possa gastar do meu tempo em analisá-las, envolvendo-me, conhecendo-a em cada imperfeição, enquanto ouço a verdadeira beleza de seus lábios, mente e coração.
A beleza toma todo o seu olhar e você não vê mais nada além dela.
O pensamento faz que você veja luz, harmonia, inteligência, amor e, com ele, a beleza que não cessa.
Por que algumas pessoas são tão lindas sendo apenas normais?
Porque elas trazem dentro de si o seu EU desperto, forte, seu deus.
E ai de quem não puder lhe dizer não! Será sim, um seu escravo.
Não da carne, mas do seu espírito, enquanto viverem.

DELÍRIOS DO STILNOX (Beatriz Oliveira)


Eu me sento no sofá vermelho e macio, pensando, já, em refestelar-me. Mas ainda não me é possível, pois tenho o prato de sopa nas mãos equilibrado. Vou sorvendo o creme espesso, com sabor de frango e pequenos filetes de salsa e fiapos de carne da ave. É bem saborosa e aquece o corpo. Sim. Eu estou com frio. Tenho os pés frios e as unhas das mãos levemente arroxeadas pela baixa temperatura, mas simplesmente não tenho coragem de largar o prato, levantar-me, seguir até o quaro, abrir três ou quatro gavetas até encontrar o pijama longo e meias, vestir-me, equilibrar a minha temperatura interna, por conta do tecido frio do pijama, voltar para o sofá, sentar, equilibrando o prato com sopa, colocar novamente o guardanapo ao alcance e recomeçar o ato de sorver.
Essa quebra na rotina simples seria uma bobagem, para alguns, entretanto, para mim significaria abdicar de um momento íntimo de relação comigo mesma, em que eu me equilibro e lido com o meu medo-desejo em relação ao alimento. Esse momento de identificação precisa ser clarificado na mente como um processo de autoconhecimento e libertação. Eu reconheço que sou prisioneira do calor da minha sopa. Mais do que do frio do tempo. Se fosse um sanduíche, eu levantaria. Um qualquer outro prato, eu levantaria. Exceto risoto de funghi. Tudo aclarado, pode-se dizer que, após a sopa quente, no meu sofá vermelho macio, o meu corpo foi-se largando, como se ali fosse ficar para sempre. E eu pude imaginar… Sem ética, educação, sociedade…
Ali eu ficaria. Esparramada no sofá, o prato no chão. Deu sono. Deitei e dormi. Deu calor. Despi-me. Deu tesão. Satisfiz-me. Deu sede. Abri a boca e veio a água. Deu fome. Abri a boca e a comida veio. Liguei a TV, deitada mesmo. Assisti O Clone, El Secreto De Tus Ojos, Inception, The Fountain. Chorei. Desejei justiça. Chorei. Desejei conhecimento. Chorei. Li As Intermitências da Morte, O Ensaio sobre a Cegueira, Clarice na Cabeceira. Gargalhei e chorei. Chorei. Chorei demais da conta! Desejei não pensar, dormi. Dormi muito mesmo! Três dias, seis dias, nove dias! Mas sonhei meu EU. Chorei. O que leva certas pessoas a serem ativas e outras extáticas? O que leva alguém mesmo extático a pensar, como se ativo fosse? A mente e o corpo se entorpecem, mas há uma parte de mim… Há uma parte que teima em emergir e, quanto mais empurrada para o fundo, mais ela impulsiona, no fundo, os pés com o intuito de elevar-se além da superfície.
Não há sonífero bastante! Ha ha ha! Não há entorpecente que segure o que eu sou! Na verdade, penso que o veneno me detona. Paralisa meu corpo e meu estado mental crítico, deixando-me a sós comigo mesma. Isso, embora seja extremamente perigoso, é também, por demais excitante. Pequeníssimas ondas, quase imperceptíveis de choque levíssimo, vão percorrendo minha nuca, minha lombar e meu púbis, como se houvesse pequenas borboletas agitando com velocidade inimaginável as suas finíssimas asas nessas partes do meu corpo.
Penso em tocar-me e sentir aumentadas as ondas, mas os meus olhos estão pesados.
O sonífero é bastante!
O sonífero é bastante.
O sonífero…

DO PRAZER MANIPULADO - Beatriz Oliveira




O prazer é uma linha de ouro bordada no tecido da falta de motivo.

- Por quê? Por quê eu deveria me dar ao trabalho de fazer tal coisa?

- Porque é o prazer. É muito bom e não se desperdiçam delícias nesse mundo de

pobreza e falta de ética.

- Borda o prazer e se enrola no tecido da falta de motivo, se enrola, enquanto ele

pode te cobrir até os tornozelos.

Pois haverá tempo em que o tecido da falta de motivo bordado com a linha de ouro

do prazer somente será capaz de te cobrir o sexo.

Ah, o desdém.

Ai, de Adão e Eva modernizados.

Ai, ai...

BISCOITO FINO - Beatriz Oliveira



O meu olfato segue às ordens de um general maldito.

Tal como todos os lassos, raramente me desperta.

No entanto, ao despertar, envolve-me, pegando os braços,

Pernas, rompendo-me o livor e inebriando-me de odores,

Enleando-me, aos seios, com sentimentos crassos.

Uma vez, assim, envolvida, minha pele toma vida e cria.

Pela pele tudo posso!

Qualquer coisa que passar por mim, é com todo o corpo que eu cheiro e sinto.

De uma árvore eu sinto o musgo fresco e ácido, a umidade através dos poros,

O gosto verde, através do cheiro.

Do mar eu sinto o sal, a cura, o frio, através dos poros,

A solidão do mar, através do cheiro molhado.

Do rapaz moreno eu sinto o sabonete, a proposta e a invasão,

Enquanto minha pele é agredida por minúsculos soldados nus.

Os soldadinhos me invadem a carne com pequeníssimas bombas de perfume

E eu fico totalmente inebriada.

O perfume tornou-se, agora, uma capa de filme plástico, daquelas que cobrem tudo

E ele me cobre toda, da cabeça aos pés, deixando por último o nariz
,
Onde vai entrando agora lentamente, como o meu último sopro de vida,

Entorpecendo-me e me transtornando, ando já perdendo o ar!

Esgazeando, com a boca aberta, imploro por salvamento, quiçá um beijo.

Mas o rapaz é só um passageiro e se mantém no seu papel.

Quero controlar o olfato, desligar o pensamento,

Mas o general não permite!

Passa o vento e o perfume vem. Malditos soldadinhos infames!

Fecho os olhos de prazer. Será isso o prazer completo?

Amar alguém enquanto se é perdido por um odor tão espetacularmente envolvente?

Perder-se em delírio saboreando um delicioso biscoito fino

Feito de olhares, toques e odores de pele de menino?

sábado, 8 de outubro de 2011

ALMA PIRATA (BEATRIZ OLIVEIRA)

Já chega a noite atribulada
Quando os desejos sombrios me povoam a alma
Feito piratas confiscando embarcações,
Navios empilhados de ouro, bauxita, armas brancas,
Armas negras, igualmente poderosas.
Piratas invadindo um Iate Real, ordeiro
E transformando-o numa embarcação nefasta!
Onde a primeira regra é seguir às ordens da capitã e
A segunda regra é que não há mais regra alguma,
Na busca incessante pelo hedonismo racional.
Hedonismo racional? Hão de perguntar!
Que piratas mais loucos! Hão de dizer!
E eu direi que o hedonismo sem a razão
É um cavalo potencial na raia sem seu jóquei.
O prazer é algo irrefreável sem o conhecimento.
Por isso os piratas lutam sempre, sempre...
Alguns pelo amor, alguns pelo entendimento.
Luta vil, mormente quando se pretendia dormir
E se é tomado pelo sombrio gosto do temor.
Um temor de delícias, que quem as teme?
Às vezes, eu, sim, as temo, que se começo
Já me perco, ensimesmada, e não sei como parar.
Um temor de análises, que todos temem
E só eu pareço não temê-las o bastante e arriscar
Meu papo flácido sob o aço frio e cortante,
Minha cabeça numa bandeja de prata,
Durante um jantar no navio, regado a lenços de voile.
Beleza, juventude, vida e sangue quente
Num corpo separado de sua preciosa cabeça.
Preciosa cabeça sem valor e serventia
Para essa vida onde nada tem controle, nem destino.
Assim. Assim, tornado homem decapitado,
Sem olhos, nariz e ouvidos voltados para fora,
Consigo me perceber melhor.
Posso ver minhas dores e não as dos outros;
As minhas preocupações; as dívidas da minha família,
E não as do resto do país.
Posso ver como tenho sido egoísta comigo mesmo,
Privando-me da companhia e do amor familiar,
Em prol do capital, intelectual, do status.
Como tenho sido tolo tendo porque todos têm;
Fazendo porque todos fazem;
Comendo porque todos comem;
Fumando porque todos fumam e
Dormindo só, pois todos vão embora em algum momento
E fico só eu, comigo, e com tudo o que eu fiz.
Há um momento em que a cabeça na bandeja pulula.
Mas eu não sou mais o seu lugar.
É hora de fatiar o suculento prato principal
E se acostumar com a lembrança de um levíssimo sabor.
Lábios hedonistas hão de saborear miolos truculentos
E lhes parecerão carne mal passada de polvo que não quis a morte,
Mas morreu assim mesmo, eis que nessa hora não se discute.
Hão de saborear o gosto de uma vida nova, agridoce,
Em que jogaram fora antigos conceitos arraigados
E se trouxeram novos em substituição.
Há que haver alguma mudança! Uma reação!
Uma ventania há de passar e enfunar as velas!
Eu hei de gritar aos quatro cantos da terra:
VENTO! - VENTO! -VENTO! - VENTO!
Vêm ao meu auxilio Cronos e Eólo,
Afastando todo o julgamento e o passado.
Nesta manhã desconcertada, despertarei sincera
Limpa, cheia de mim mesma, de tempo e de vida.
Porque se vencer demanda imprecisão,
Ética, mas acima de tudo, coragem de olhar para si.
Eu me olhei e me vi sem cabeça.
Ouso dizer que sou mais bela assim.
Mula sem cabeça de crina longa e loura,
Prontinha pra ser feliz como Deus quiser.
E a cabeça da bandeja?
Ah, essa vai balançando doida ao som do meu tchi ki bum bum.

domingo, 2 de outubro de 2011

A NATUREZA (Beatriz Oliveira)

 
 

Quando as pessoas dizem que a natureza é perfeita, eu concordo, porque se eu discordasse teria que provar a minha teoria e isso seria complicado. Bem, é mais fácil perceber a perfeição natural do que a imperfeição antinatural, porque o normal é ser perfeito e quem não crê na perfeição não é normal, porque a normalidade faz parte de um meticuloso processo ético realizado por pessoas antiéticas, que são loucas, mas juram que são normais e, como os loucos têm um poder de contundência esplendoroso, a gente acaba acreditando que eles são normais e que louco é a gente. Você entendeu? Se entendeu me explica, porque eu fiquei meio perdida! Deixando isso de lado e valorizando a perfeição da natureza… Se você acordar de manhã, fizer xixi, tomar café, escovar os dentes e for trabalhar, as pessoas vão achar que você é normal, sem saberem o que você realmente fez à noite… Por outro lado, se você não escovar os dentes, não fale perto de mim, pois eu vou achar que você é um porco! Se você vai trabalhar, volta à noite, cansado, toma banho, janta e vai dormir, sem dar nem um beijinho na sua mulher, eu vou achar que ela deve trocar de marido, porque você não “tá com nada”. Por outro lado, se você vai trabalhar, volta à noite tinindo, toma banho, janta e vai agarrar a sua mulher, eu vou achar que ela deve correr de você, porque, depois de um dia de trabalho só um tarado teria tanta disposição (a não ser que ela seja ninfomaníaca). Se você faz certas coisas mecanicamente, não vai perceber o que dizem as entrelinhas da vida. Por exemplo, se você é médico e sai pra trabalhar e tropeça numa pedra que há na porta da sua garagem e cai de bunda naquela poça de lama que VOCÊ fez ontem, quando lavou o carro, olha quanta coisa VOCÊ fez de errado: primeiro, você é médico. Se você fosse advogado, talvez desse pra você trabalhar com a bunda suja, porque o cinza do terno disfarçaria a cor da lama; segundo, você lavou o seu carro na SUA garagem. Se você tivesse aproveitado quando o vizinho saiu para fazer compras e tivesse lavado o carro na garagem dele, a poça estaria lá e não aqui; terceiro, você não levou adiante aquele cursinho de MIND POWER que a Dona Zuleica ministrava no interior da sua cidade natal, há vinte anos atrás. Se você tivesse terminado, hoje já seria adivinho e desviaria da pedra antes do acidente. Veja só, outro exemplo, você vive reclamando que não agüenta mais trabalhar e que a praga da sua mulher não te deixa descansar no fim de semana. Aí, quando chove, você quer brigar com São Pedro. Vê se pode? Só porque não vai poder ir ao futebol com aquele bermudão de tactel que a sua secretária te deu no seu aniversário?! Mas, por outro lado, você não percebeu que o quintal já tá lavadinho e você só vai ter que lavar a louça depois do almoço. Mas se você for um pouco esperto, vai usar aquela BOSCH que a sua sogra te deu no natal e vai fazer uma goteira bem em cima da pia da cozinha. Sabe, acho que é verdade quando dizem que a natureza é perfeita! 
A gente é que não sabe viver…!