Quem sou eu

Minha foto
Maricá - Itaipuaçu, Rio de Janeiro, Brazil
Sou poetisa, cantora, compositora e amante das artes.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O HEDONISMO NA ERA DO CAPITAL – Beatriz Oliveira



Sei que muita gente vai me rotular de louca, mas os rótulos estão na moda e não vou me preocupar com isso.
Há algum tempo tenho sentido necessidade de falar sobre a maldade que vem assolando a nossa sociedade. E não falo somente da violência física que vem se abatendo sobre os cidadãos brasileiros, mas da violência moral, emocional, da falta de ética, da crueldade estética, da total falta empatia. E para falar disso, vou começar bem lá atrás, com o nascimento do capitalismo.
A vida já era bem dura quando as pessoas mais abastadas possuíam terras e bens que as pessoas menos abastadas trabalhavam arduamente para manter. E tudo ficou muito pior quando a indústria e o comércio perceberam que poderiam auferir lucros imensos oferecendo produtos úteis e imprescindíveis à população por um preço altíssimo, embora tenham usado muito poucos recursos para tornar tais produtos consumíveis.
Bem, dando um bom salto na história, a fim de não me tornar enfadonha vemos, hoje, uma infinidade de produtos inúteis, lixos publicitários, vendidos a preço de ouro para pessoas que mal têm o que comer.
O capitalismo não é ruim. A evolução é necessária! Quem vive nas grandes metrópoles, quem não curte o campo e exerce profissões urbanas, precisa pagar pelo trabalho de quem planta, colhe / extrai, transporta, produz / transforma, vende e revende os produtos que consome, bem como os medicamentos produzidos. Sim! São trabalhos valiosíssimos e necessários para a caminhada das sociedades rural e urbana. Contudo, por que o lucro deve ser tão exacerbado? Por que não se cobrar o preço justo? E por que esse lucro exagerado sempre vai parar nas mãos de quem trabalhou menos ou nada?
O capitalismo selvagem é ruim! O ser humano é insaciável e egoísta! Isso fez os homens por trás das grandes empresas quererem sempre mais, sempre mais dinheiro. Então, o marketing entrou na jogada... Através dos grandes profissionais do marketing, as pessoas começaram a desejar adquirir coisas das quais não precisam e a adquiri-las sem poder pagar por elas!
Os homens não puderam mais sustentar suas famílias e as mulheres foram à luta. Isso foi ótimo para a evolução feminina, mas foi péssimo para nossas crianças, que começaram a ser criadas por pessoas que não conhecemos profundamente e que possuem crenças e princípios diferentes dos nossos e, principalmente, que não são as mães das nossas crianças, por mais profissionais que tentem ser.
Antigamente, as férias escolares duravam quatro meses: julho, dezembro, janeiro e fevereiro. Hoje, duram quinze dias em julho e o mês de janeiro, somente. Até mesmo as crianças estão assoberbadas na escola, cursos, atividades... Falando somente dos filhos da classe da média... Os pais trabalhando mais e mais, não têm tempo de curtir seus filhos e procuram suprir esta falta com coisas materiais. Isso, associado à violência urbana, faz com que as crianças estejam cada dia mais presas em apartamentos, jogando videogames e reféns das redes sociais, incapazes de socializar fisicamente.
Agora... Falando das classes mais baixas... Sendo um pouco debochada, as férias podem durar o ano inteiro, se nós englobarmos algumas comunidades e as zonas rurais menos afortunadas. Nas escolas que funcionam, não há merenda escolar, nem vou mencionar o motivo... Em suas casas, igualmente às crianças da classe média, os pais estão trabalhando, em empresas, casas de família, hospitais, escolas ou no tráfico de entorpecentes. Contudo, diferentemente das crianças da classe média, elas não fazem cursos e atividades extracurriculares, nem estão sob os cuidados de babás, porque os seus pais não podem custear isso. Diferentemente das crianças da classe média elas não possuem perspectivas.
Mas essas crianças e adultos, de todas as classes desse país, têm uma coisa muito importante em comum: o consumismo exacerbado. Então vemos pessoas que moram de aluguel, mas andam em carro do ano. Muitas vezes, esse carro tem o IPVA atrasado, mas o dinheiro da gasolina, da manutenção e da prestação poderiam certamente pagar a prestação da casa própria. Vemos pessoas sem dinheiro para comprar a comida do dia a dia, sem dinheiro para a escola dos filhos, para um plano de saúde para a sua família, fazendo festas imensas e postando fotos maravilhosas nas redes sociais, fazendo churrascos semanais e ostentando correntes de ouro e telefones celulares caríssimos, vemos crianças que residem no interior, que não vão à escola, mas brincam em tablets e notebooks modernos.
Pelo amor de Deus! Não estou dizendo que uma pessoa não tem o direito de se divertir e de alegrar a sua família com uma festa. Estou dizendo simplesmente que tudo na vida é uma questão de prioridades e os valores da nossa sociedade estão invertidos.
Infelizmente, atualmente se valorizam mais as coisas que as pessoas. A vida virou lixo. Mata-se uma pessoa por causa de um relógio, de um aparelho celular. A moral e a ética estão agonizando sob os pés de uma sociedade extremamente hedonista.
Eu me lembro de quando era criança e assistia a um programa infantil em que havia uma grande roleta que o apresentador rodava e era perguntado a uma criança, ao telefone, qual prêmio ela gostaria de ganhar. Na grande roda, havia escritos vários nomes de brinquedos: boneca, patinete, computador, jogo de tabuleiro, bicicleta, mil reais. Eu ficava, de casa, torcendo pelos brinquedos que eu gostaria de ganhar e as crianças que conseguiam falar ao telefone torciam para ganhar, em sua maioria, a bicicleta ou o computador. Há cerca de dez anos atrás, quando minha filha era pequena e também assistia ao mesmo programa, eu via, indignada, todas as crianças ao telefone pedirem para ganhar mil reais.
Agora me diga, o que uma criança de sete ou oito anos de idade pretende fazer com mil reais? Óbvio! Comprar um monte de coisas que são oferecidas na TV e das quais ela não precisa, tal qual nós, adultos, quando compramos mais uma blusa, mais um par de sapatos, uma TV mais moderna, um telefone celular com mais recursos completamente diferentes de telefonar para alguém.
Indo um pouco mais além e ainda sobre o hedonismo, não podemos nos esquecer das pessoas desequilibradas que cometem violências e abusos físicos e psicológicos contra os outros, inclusive contra as crianças.
Temo que estejamos vivendo numa sociedade cada vez mais psicótica, no sentido literal da palavra. Segundo a wikipedia, psicopata é a “designação atribuída para um indivíduo com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela pertença de uma atitude de dominância desmedida”. Alguém duvida que nós todos estejamos afetados pela psicopatia, em algum nível? Roubos, furtos, agressões físicas, homicídios, torturas, pedofilia, e falo de nós todos mesmo quando falo da total falta de empatia, do egoísmo, individualismo, pequenas contravenções, furto de luz, água, gatonet, violência doméstica, desrespeito racial, religioso e de classes, homofobia, mesmo aquela velada do tipo “eu respeito, mas não gostaria que meu filho fosse...”, xenofobia, tudo isso, alguma dessas coisas cada um de nós é capaz de fazer independentemente do mal que possamos vir a fazer a outras pessoas, desde que fiquemos saciados.

Devemos comer as comidas da TV, até ficarmos saciados. Devemos vestir as roupas que as atrizes vestem, até ficarmos saciadas, ter os aparelhos eletro-eletrônicos que aparecem na TV, até ficarmos saciados, devemos viajar para os lugares que os nossos amigos mais ricos foram, até ficarmos saciados, devemos ofender nossos ímpares, até ficarmos saciados, bater em nossos desafetos ou ver alguém fazer isso, até ficarmos saciados, devemos possuir as coisas que as pessoas possuem nos filmes e novelas, até ficarmos saciados. Mas não percebemos que o sentimento de hedonismo não permite nunca que nos saciemos. Sempre estaremos famintos e sedentos de algo mais, de algo que o capitalismo nos promete, nos demonstra, nos oferece, mas nunca entrega. E nós seguiremos sempre, correndo atrás do tempo, cada vez mais rápido, atropelando as pessoas e as coisas, adquirindo coisas de que não precisamos, tentando encontrar o que precisamos, mas não sabemos o que é, porque somos incapazes de ficar em silêncio e ouvir os nossos próprios desejos. Estamos sendo bombardeados com desejos que não são nossos e estamos sendo profundamente infelizes por isso, mas se comprarmos uma bolsa nova ou um novo I-Phone vai ficar tudo bem. 
Ou não...

Nenhum comentário:

National Geographic POD